domingo, 14 de junho de 2009

O Fiel jardineiro


“Love them all, but don’t trust them”, diz-me a Paula, mulher negra sul-africana, residente no Soweto. “Eles vêm do Zimbabué para trabalhar e fazer dinheiro, não para fazer amigos. São muito simpáticos, mas a vida humana não tem o mesmo valor que tem para nós, entende? À primeira oportunidade matam-lhe o seu marido e o seu filho, se for preciso, para lhe assaltarem a casa.”- disse ela com os enormes olhos brilhantes e negros abertos.
Não estava à espera de ouvir tal coisa, e depois deste comentário da Paula, comecei instintiva e inevitavelmente a olhar para o Alex, o nosso jardineiro zimbabueano com outros olhos.

À quarta-feira, faça chuva ou faça sol, lá vem ele montado na sua bicicleta cor-de-rosa, depois de pedalar durante uma hora até nossa casa.
Chega sempre às 8 horas em ponto. Fiel à pontualidade britânica, assim como ao seu gosto pelo chá, que os ingleses tão bem conseguiram incutir aos povos de todas as antigas colónias. Gosto sempre de dizer que se não fosse a nossa Catarina de Bragança, o chá das 5 nunca seria um ex-libris da cultura britânica.
A primeira coisa que lhe ofereço ao pequeno-almoço, é uma chávena de chá quente com leite e muitas colheres de açúcar. Inicialmente punha apenas duas colheres, mas depois percebi, ao ver o açúcar desaparecer cada vez que enchia o frasco, que tinha de reforçar a dose. A Mary, também ela adepta de açúcar, confessou-me que ele tinha vergonha de me pedir, mas à primeira oportunidade ia ter com ela para lhe pedir mais açúcar no chá. Nós que raramente usamos açúcar, a não ser uma ou duas colheres no café, passámos a comprar pacotes de 2 kg de açúcar que duram umas semanas.

“Hé-llo, how - are - you?” – diz o Alex, mal me vê chegar ao portão. Com um sotaque muito carregado, pronuncia todas as sílabas e as vogais muito abertas. “How is “shimani” (pequeno rapaz em sotho)?”.
Sinto-me horrivelmente culpada, mas depois do comentário da Paula, o certo é que deixei de conseguir olhar para o pobre Alex da mesma maneira. Mesmo com o seu aspecto humilde e a sua impressionante educação britânica.

Depois de lhe fazer uma tosta bem apetrechada com várias fatias de queijo e fiambre, desligo a rede eléctrica da casa, não vá o homem morrer electrocutado enquanto arranja o jardim.

Tal como herdámos a Mary, que nos limpa a casa, também herdámos o Alex, quando alugámos a casa. Já cá trabalhava há 8 anos, e foi ele, juntamente com o proprietário da casa e um grupo de zimbabuenos, que reconstruiram a vivenda, que segundo a Mary estava em muito mau estado. “Está a ver a banheira, os azulejos, o lavatório da casa de banho. Fui eu que montei isto tudo. E também pintei a casa e pus o soalho de madeira”- diz-me com um ar orgulhoso. “Conheço esta casa como a palma das minhas mãos”- diz a sorrir, mostrando-me a palma da mão branca que contrasta com a pele muito negra. “Conhece a casa como a palma das mãos, o que quer ele dizer com isto?” –penso eu, apavorada. Mais uma vez aparecem os sentimentos de suspeita e paranóia. “Será que já está a planear o crime? Se calhar consegue entrar aqui dentro por algum esconderijo secreto que ele conhece, sem nos apercebermos de nada."
Lembro-me da história de um jornalista sueco que vivia em Melville, e que nos contou uma história incrível de ladrões que assaltavam as casas, atravessando as condutas de água, que estavam ligadas ao centro da cidade. Tento disfarçar os meus pensamentos horríveis e sorrio. “Muito bem Alex. Fez um belo trabalho. Esta casa está magnífica. Deve ter demorado muito tempo...Hoje gostava que arranjasse uma infiltração que temos ali no quarto, depois de tratar do jardim, está bem?”

O Alex tem 30 anos, deixou a mulher, professora de inglês e a filha de 5 anos e está desempregado. Vive em Yeoville, um dos bairros mais perigosos da cidade, e a partir das 7 da noite fecha-se no quarto alugado e ouve tiroteios.

Actualmente, com a vaga de desemprego que afecta a África do sul, e que ultrapassa os 20%, para além dos biscates que vai fazendo aqui e ali, o único trabalho fixo que tem é vir a nossa casa uma vez por semana, arranjar o jardim, limpar a piscina e pequenos arranjos de manutenção em nossa casa.

Tento imaginar a ninharia que o sul-africano, proprietário da casa, gastou nas obras da casa quase devoluta que comprou por tuta e meia num bairro, que foi ganhando popularidade, depois do fim do apartheid, quando os brancos fugiram do centro da cidade para escapar à violência e criminalidade e se instalaram nos bairros a norte da cidade, onde actualmente só vivem brancos. Tudo isto ainda se torna mais escandaloso, se pensar na quantia exorbitante que pagamos mensalmente pela renda desta vivenda....apesar de saber que nesta cidade, só é possível viver em bairros de pessoas ricas por causa da segurança.

“O homem passa fome. Já viste como ele é magro?” – diz a minha tia que veio passar umas férias connosco. A figura esguia e seca do Alex, os olhos grandes e brilhantes parecem saltar da cara magra com ossos salientes.
Para além das refeições que toma em nossa casa, passámos a comprar-lhe sacos de arroz, carne, feijão, bolachas e barras energéticas. Não é muito, mas pelo menos sentimos que estamos a contribuir um bocadinho para garantir a sobrevivência dele.

Com receio de que aquele peso de pluma, voe da bicicleta, eu e o João enchemos-lhe o prato de comida. Mas rapidamente percebemos que, por vezes, exagerávamos e que aquelas refeições pesadas, às quais não está seguramente habituado, resultavam numa lenta digestão que o deixava num estado de letargia. O João apanhou-o por diversas vezes encostado a um banco a dormir a sesta, depois de nos entregar o prato limpo, como se tivesse sido lavado na máquina de lavar.

A minha tia fez questão de trazer-lhe imensas prendas de Lisboa. Ofereceu-lhe roupa do meu avô e do meu pai, que lhe fica a nadar, e um relógio de pulso. O homem ficou comovido e os olhos encheram-se de lágrimas. “Thanks a billion”. Os zimbabueanos têm o hábito de dizer a million ou a billion nas circustâncias mais estranhas. Já pensei se isso não terá a ver com o facto de terem a inflação mais alta do mundo, graças ao governo do Sr. Mugabe, em que um nota de um bilião de dólares não vale absolutamente nada.

“Nunca conheci pessoas como vocês” -diz ele. Fiquei a sentir-me ainda pior, com os meus sentimentos de suspeita. “Pobre Alex. Como posso ser assim?”

O pontual e fiel jardineiro volta sempre, todas as semanas, montado na sua bicicleta cor-de-rosa, com o boné do Ministério da Saúde de Portugal, vestindo o pólo azul escuro do meu pai.

Tuga Land




Só quem já viveu no estrangeiro, fora da zona onde vivem as comunidades portuguesas, consegue entender o entusiasmo que é visitar o bairro dos “tugas”.
Há sempre um misto de uma atmosfera decadente, um ambiente cristalizado no tempo, de alguém que já partiu de Portugal há muitos anos, mas preservou intacta a imagem que tinha de um país que já mudou tanto desde então, e algo de muito genuíno que nos prende àquele espaço. Tudo se torna familiar, até o toque "bimbo" que está presente em muito do que nos rodeia. São as nossas referências culturais que ali estão e um pedacinho de nós...até no pudim boca doce de morango, que não resisti comprar, e que me trouxe o cheiro da casa da minha avó paterna, em Entrecampos.

Pela primeira vez fomos a Bedford View, no sul da cidade, onde vive uma boa parte da comunidade portuguesa. Visitámos mercearias, peixarias e pastelarias onde literalmente enfardámos pastéis de nata, queijadas e travesseiros. Depois desta bomba calórica, continuámos nesta euforia difícil de descrever, que os bairros portugueses nos despertam.

No supermercado parecíamos crianças, que vão pela primeira vez com os pais a um hipermercado, e querem levar tudo o que está à vista nas prateleiras. Enchemos o carrinho das compras com garrafas de azeite galo, latas de feijão, azeitona preta “Maçarico”, atum “Bom Petisco”, bacalhau, chouriço, presunto, morcela e tudo o que consigam imaginar. Estivemos quase, mesmo quase, a comprar um assador de chouriço em barro mas lá nos conseguimos controlar a tempo. Até que o João, que já não vai a Portugal há mais de 7 meses, perdeu o controlo da situação e comprou várias dúzias de pastéis de bacalhau, rissóis de camarão e croquetes.
À noite fizemos uma panela de feijoada com farinheira, chouriço, toucinho, morcela e tudo aquilo que faz mal à saúde, mas que adoramos na cozinha portuguesa. A feijoada durou vários dias e a Mary e o jardineiro Alex deliciaram-se com a iguaria portuguesa.

Já tínhamos ido a um famoso festival português, chamado “Lusito Land”, que se realiza todos os anos em Joanesburgo. A música dos Santa Maria, era interrompida pela voz de um ridículo Elvis com enormes patilhas e uma popa, que cantava “Love me tender” num palco, para uma audiência de miúdos sentados na relva.Foi uma desilusão mas deu para comer uma bifana de porco no pão que “soube a pato”!

Este ataque eufórico de consumismo e gulodice, fez-me lembrar as vezes em que apanhávamos o comboio de Manhattan para New Jersey e entrávamos no supermercado “Seabra's”. Com mochilas e sacos de compras a abarrotar, lá nos arrastávamos para a estação de comboios até ao nosso micro-apartamento no centro de Manhattan.

Como não podia deixar de ser, em Joanesburgo os portugueses são conhecidos pelo famoso “Portuguese roll”, o tradicional papo seco ou carcaça, que se encontra a venda nos melhores supermercados do país (Os portugueses continuam a ser os padeiros mais famosos do mundo). E ainda pelo frango assado com piri-piri e o prego no pão, que consta em quase todas as ementas de qualquer restaurante de Joanesburgo que se preze. Por tudo isto, só nos resta dizer: E viva à "Tuga Land"!

terça-feira, 9 de junho de 2009

Johannesburg Oyster Food and Wine Festival



Saboreamos o vinho das terras do Cabo, deitados na relva. Olhamos para os miúdos africânderes descalços (andam sempre descalços) a saltitar de um lado para o outro.

Sentimos o sol do outono sul-africano, uma espécie de verão de São Martinho constante, a bater-nos na cara. O vinho branco escorrega e mistura-se com o sabor a mar das ostras frescas, com limão e pimenta preta. Permanecemos ali, deitados durante um tempo indeterminado....

Um homem de cadeira de rodas passa por nós e levanta uma garrafa para nos fazer um brinde. “Cheers!”- grita ele. Levantamos o copo, que nos deram à entrada e preparamos-nos para mais uma deliciosa prova de vinhos nas tendinhas, espalhadas pelo recinto do segundo maior festival de Vinho e de Ostras da África do Sul. You wouldn't want to miss this!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Afinal tinha sido mesmo ali ao lado...




Antes da nossa chegada a Joanesburgo, tinha uma série de imagens na cabeça, que eram fruto de impressões que nos foram relatadas por alguém que por aqui passou, pelo que tínhamos lido e pelas notícias absolutamente assustadoras, que eram tudo menos convidativas para emigrar para este país. A criminalidade, a violência, o racismo, o assassinato de emigrantes portugueses...Tudo isto fazia-me ter vontade de desistir de embarcar nesta aventura.

“Mas vão para Joanesburgo com o miúdo? Vocês são doidos! Aquilo é um campo de batalha. Perigosíssimo! Vocês sabem onde é que se vão meter? Ainda se fosse a Cidade do Cabo...É uma das cidades mais bonitas do mundo. Eu estive lá de férias!”. Este era o tipo de comentários que ouvia, antes de partir para a África do Sul, no final de Janeiro. Como muitos de vocês sabem, o João já se tinha apaixonado por África há muito tempo, eu limitava-me apenas às memórias que tinha das histórias que os meus pais me contavam, desde a minha infância, sobre a experiência que tiveram em 1974/75 quando viveram em Santo António do Zaire, Angola.

É sempre uma aventura mudar de país e a sensação de poder recomeçar tudo de novo é talvez a maior motivação para conseguir largar a família, os amigos, o emprego e partir para um sítio desconhecido, onde não conhecemos ninguém e onde não temos qualquer referência.

Há uma sede imensa que se apodera dos nossos sentidos e bebemos tudo o que aparece à nossa volta, temos uma energia incrível para fazer coisas novas, absorver os novos ambientes e uma enorme vontade de aprender. Mal cheguei, a primeira coisa que tive de aprender foi a interiorizar hábitos de segurança, porque sabia que ia viver numa cidade perigosa, onde a criminalidade continua a ser lamentavelmente, uma das mais altas do mundo, e num país que está no topo da lista do maior número de casos de HIV, em todo o mundo.

Era a primeira vez que viajávamos com o nosso filho, que estava prestes a fazer dois anos. E por todas estas razões, não era uma decisão fácil de tomar.

Uma das histórias que me perseguia tinha sido contada por uma amiga minha, que viveu uns meses em Moçambique e que, ao visitar a casa de um amigo em Joanesburgo, se deparou com um cenário de filme de suspense. O amigo dela vivia literalmente numa fortaleza, fechado a sete chaves, entre portas e portões de ferro, cadeados, alarmes, redes eléctricas e arame farpado à volta da casa. Antes de se deitar, fechava as dezenas de cadeados e um portão de ferro que tinha à frente da porta do quarto.


Tentei não entrar em pânico e levar isto tudo nas calmas, dentro do possível... mas receava ter de viver fechada num bunker e não poder circular livremente com o meu filho. Pensei várias vezes....será que estou a ser inconsciente? Será que vale mesmo a pena arriscar?

Felizmente, quando cheguei o João já tinha preparado o terreno e arranjou-nos uma casa num bairro seguro e simpático, onde há boas lojas e parques. À noite, os bares e restaurantes enchem-se de gente e durante o dia, as famílias passeiam tranquilamente. A paisagem tinha tudo menos o ar ameaçador o e clima de medo que eu até então imaginava.

Uma semana depois de aqui ter chegado, fomos a um almoço com vários jornalistas numa casa estupenda num dos muitos subúrbios a norte de Joanesburgo. À semelhança dos Estados Unidos, os subúrbios de Joanesburgo nada têm a ver com os subúrbios em Portugal, onde muitas vezes as pessoas vivem apinhadas em arranha-céus com vista para arranha céus, sem espaços verdes e onde a qualidade de vida deixa muito a desejar...sem falar nas horas que se perdem no trânsito absolutamente caótico.

À excepção dos enormes bairros de favelas que também fazem parte da paisagem da cidade, os subúrbios de Joanesburgo exibem belas vivendas com jardins, parques infantis e pequenos centros urbanos que foram crescendo de forma ordenada, para servirem os interesses dos moradores.

Mal chegámos a esta casa magnífica com um corte de ténis no jardim e um parque infantil, que até um trampolim gigante tinha para a crianças, reparei num símbolo colocado à entrada da casa com dois tigres de boca aberta e dentes ameaçadores. A tabuleta dizia “Mapogo a Mathamaga” e era obviamente o símbolo de uma das muitas empresas de segurança que existem neste país.

O dístico da empresa de segurança que contratámos diz apenas ADT - Armed Response – o que não deixou de surtir uma reacção de estranheza quando aqui cheguei...No entanto, não sei se os bandidos pensarão o mesmo.

Perguntei ao dono da casa, um jornalista escocês, que empresa era esta. Ele olhou para mim com um ar sério e disse baixinho: “São assassinos profissionais.” Fiquei em estado de choque, será que nós também tínhamos contratado assassinos profissionais e não sabíamos?? Explicou-me que os tipos da “Mapogo a Matamagha” trabalhavam no underground e que perseguiam os ladrões até obterem os objectos roubados e terminavam o serviço de forma eficiente. “Terminavam o serviço??? Será que ele queria dizer que “limpavam o sebo ” aos ladrões que tentassem assaltar a casa dele??

“No outro dia a minha mulher foi levar os nossos filhos à escola e quando olhou para o carro viu uns tipos a olharem para o autocolante no vidro traseiro ...sim porque nós também andamos com este símbolo no carro. Os tipos olharam para a minha mulher e apontaram para o dístico como quem diz: “Com estes tipos não se brinca!”, estás a ver.”

O João quis saber como era o aspecto dos indivíduos da "Mapogo a Mathamaga"e ele respondeu-lhe que falava sempre com um velhote castiço e simpático, com um ar perfeitamente inofensivo.

Quando nos despedimos, o escocês disse-me ainda: “Se estiveres a chegar a casa e perceberes que estás a ser seguida, dá uma volta e liga para o João, para a polícia ou para qualquer um de nós. Não saias do carro e tranca sempre as portas. Dá umas voltas ao bairro para despistares os tipos! Se o João não estiver liga-nos.” Acenei com a cabeça e agradeci.

Dias depois desta conversa, o Tiago agarrou no meu comando do alarme da casa e carregou no botão do “Panic Alarm”, aquele em que só se carrega em caso de emergência, quando o alarme dispara e há suspeitas de haver um intruso na nossa casa ou no nosso jardim. Minutos depois, apareceram dois indivíduos armados com metralhadoras e coletes à prova de bala, junto ao nosso portão.

Chovia a potes. Agarrei no miúdo ao colo e fui à porta.

“Is everything fine Madam?”- disse aquela figura imponente no meio de uma tempestade tropical. “Yes, everything is fine. It was my son”- respondi, apontado para o Tiago, que se ria e estava em pulgas para saltar para o colo do homem. “Im sorry. Thank you.”- virei as costas e o homem gritou “The code Madam!”.

“The code? What code?”- perguntei. “You have to give me the security code!”- respondeu o homem. “Sei lá da porcaria do code” – pensei eu. Lembrava-me lá dos quatro dígitos do código que o João me tinha obrigado a repetir vezes sem conta, logo na primeira noite em que cheguei a Joanesburgo, depois de uma viagem de 10 horas e meia. E ele que até tinha feito uma cábula e colocado num esconderijo que arranjou na casa, para eu nunca me esquecer se estivesse sozinha, em qualquer aflição e o alarme disparasse e não soubesse o que fazer, em que botões carregar, e a quem telefonar.Não me lembrava, eram tantas coisas novas, tantos botões e tantos números. Liguei ao João que resmungou do outro lado e lá me deu o número. Os homens armados, imóveis olhavam enquanto eu discutia com o João naquela língua estranha e lhe explicava que me tinha esquecido do código. E ele não entendia como era possível depois de tantos avisos, cábulas e recomendações que preparara antes da minha chegada.

Finalmente disse o código aos homens armados e ensopados. Eles desapareceram e nos últimos meses vieram outros com metralhadoras e coletes à prova de bala, porque o comando da ADT vai nadando dentro da minha mala e é pressionado acidentalmente sem que ninguém se aperceba. Além disso, tornou-se uma diversão para o Tiago (por mais que eu tente esconder o comando). Com estes acidentes, pelo menos ficámos a perceber que a empresa funciona.

Pouco passava da meia-noite quando acordámos ao som de tiros e de pássaros em pânico. Sobressaltados, fomos ver o que se estava a passar. Confesso que estava bastante assustada, e mesmo o João que já está habituado a ouvir tiros nas zonas perigosas por onde tem andado há vários anos, também ficou nervoso. Afinal tinha sido mesmo ali ao lado. Vários carros da empresa de segurança ADT, estavam estacionados à porta da nossa casa, e vários vizinhos estavam junto ao portão dos nossos vizinhos da frente, que tinham acabado de ser assaltados. O João foi lá para fora. Eu fiquei no jardim a tentar decifrar o que se estava a passar. O Tiago dormia profundamente.

Cinco homens armados entraram pelas traseiras da casa e amarraram os nossos vizinhos (4 gajos). Os assaltantes levaram os computadores, passaportes, telemóveis e tudo o que conseguiram carregar e fugiram. Um dos vizinhos conseguiu carregar no botão do “Panic alarm” do comando da ADT e quando os seguranças chegaram ao local, os assaltantes começaram a disparar e conseguiram e fugir pelas traseiras.

À excepção do Tiago, ninguém na nossa rua dormiu nessa noite. Os cães ladraram até de manhã e no dia seguinte, o João reuniu-se com os vizinhos da rua e ficou a saber que a vizinha do lado tem uma arma que nunca usou e nem sabe usar, assim como todos os pormenores do assalto e as recomendações dadas pela polícia. Como por exemplo, nunca olhar para a cara dos assaltantes, para que estes não sintam qualquer tipo de provocação, nem receio de serem reconhecidos.

A partir desse dia, muita coisa mudou cá em casa e perdemos algum do nosso entusiasmo. inicial. Não conseguíamos deixar de pensar que isto podia ter acontecido em nossa casa e como seria mais fácil assaltar um casal com uma criança, do que 4 homenzarrões! Os nossos vizinhos sul-africanos nunca tinham sido assaltados, mas como qualquer sul-africano sabem que hábitos de segurança devem ter e conhecem de perto a violência e o crime. Não tinham o alarme ligado, porque tal como nós, só o ligavam antes de irem para a cama. Um deles ainda estava a ver televisão quando reparou que alguém tinha entrado na sala.

Os nossos vizinhos não tinham uma rede eléctrica como nós temos a proteger a casa e os assaltantes saltaram o muro e conseguiram entrar em casa.

Mas mesmo com todos os cuidados com a segurança as coisas acontecem. Existe alguma maneira de prevenir o crime? Alarmes, cadeados, redes eléctricas, vidros fumados no carro, portas trancadas...será que isto é suficiente?

Será que vale a pena viver aqui? E se fosse connosco? O que faríamos? Decidimos que o melhor era falar com o velhote castiço da “Mapogo a Mathamaga”.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

My lady boss



Depois de receber várias reclamações por não enviar crónicas há tanto tempo, aqui vai mais uma história da terra dos leões.
Aqueles que pensavam que eu já me tinha estampado contra um elefante ou uma girafa...desenganem-se meus amigos “I’m still here, tough and alive!”.
Ainda não atropelei ninguém, nem cometi atentados contra a fauna e flora sul-africana. O regresso a Joanesburgo, depois de umas longas férias em Portugal, obrigou o meu cérebro a ter de fazer uma ginástica mental para se adaptar de novo a esta estranha, mas excitante sensação de fazer tudo ao contrário: conduzir ao estilo britânico, sentada no lugar do morto com o cinto e as mudanças no lado oposto e fazer verdadeiras proezas nas rotundas e nas minhas quase perfeitas ultrapassagens pela direita. Ai que maravilha! Já me tinha esquecido desta adrenalina, um prazer que eu diria quase perverso, de sentir que estou a cometer verdadeiras loucuras ao volante, que em Portugal seriam consideradas infracções graves, com direito a ficar sem carta. É uma espécie de nervoso miúdinho adolescente, de quem rouba um chocolate no supermercado e sai para a rua com um ar triunfante.
Em poucos meses transformei-me num autêntico “Ayrton Senna” das estradas sul-africanas, que contrariamente ao que eu imaginava, são bem melhores do que as portuguesas.

Apesar de viver sem aquele terrível e inebriante stress de quem tem um emprego e passa o dia a trabalhar com prazos apertados para cumprir, há apenas 3 dias por semana, em que a minha cara espelha tranquilidade. São os dias em que a Mary Masoka, a nossa empregada doméstica sul-africana, vem cá a casa limpar a nossa “cottage in Africa”. O chão fica a brilhar, sem migalhas, nem formigas, nem brinquedos para tropeçar, a cozinha fica um mimo, sem o chão colado debaixo dos nossos pés e à noite vem aquela agradável sensação do lençol lavado. Que conforto! Este é um dos luxos que não posso, nem quero abdicar. Jamais! Basicamente quando alugámos esta casa, herdámos a Mary e um jardineiro chamado Alex, um rapaz zimbabueano de 30 anos “que é uma graça”, e que aparece cá uma vez por semana para arranjar o nosso jardim. Mas dele, falar-vos-ei mais tarde...

A Mary é uma espécie de “Black Mama”, com cabelo muito curto, umas ancas imponentes e um rabo saliente. Limpa impecavelmente a casa com os headphones enfiados nos ouvidos, enquanto abana o rabo e a canta músicas em sotho ( pronuncia-se sutu), uma das 11 línguas oficiais da África do Sul. Estou acostumada a vê-la de canga enrolada à volta da cintura, umas crocs nos pés e uma t-shirt colorida. Aliás, toda ela é colorida e contagia bom humor. O Tiago tem uma adoração especial pela Mary e não descansa enquanto ela não o enrola com uma toalha à volta das costas, como as africanas fazem aos bebés. Estava há poucos dias na África do Sul quando descobri esta “tara” do meu filho, que já se transformou numa verdadeira obsessão!

No meio de uma birra monumental do Tiago, em que entrei em desespero e já não sabia o que fazer para o pôr a dormir a sesta, a Mary perguntou-me se podia ajudar. Estava prestes a ter um ataque de fúria, daqueles que só quem é mãe entende (peço desculpa aos restantes), e acabei por dizer que sim, com a certeza de que seria impossível alguém que não eu, “la mamma”, conseguir pôr o Tiago a dormir. Confesso que até tive vergonha por ter causado aquela impressão de mãe inexperiente, que não consegue controlar a ansiedade e excitação do filho. Desenvolta como sempre, a Mary pegou no Tiago e enrolou o miúdo com uma toalha à volta das costas, agarrou-se ao ferro de engomar e começou entoar as suas cantilenas em sotho. O Tiago calou-se de imediato e em poucos minutos estava a dormir. Eu fiquei pasmada e aliviada por deixar de ouvir aquela gritaria e até senti ciúmes, não de ter vontade de pular para as costas da mulher, mas por sentir alguma frustração de não ter sido eu a conseguir ganhar aquela briga. A partir desse dia, trepar para as costas da Mary passou a ser uma rotina do meu filho.

Mas como vos dizia, é um descanso ter a Mary cá por casa e ver a cozinha e a casa de banho, dignas de entrarem numa revista de decoração, estilo”Country and Home”. Adoro ver os legos e pedaços de comida a desaparecerem dos cantos da sala e debaixo do sofá e, acima de tudo, adoro o cheiro a limpez!

Com um sorriso rasgado que atravessa a cara escura, e o contraste dos dentes brancos mármore, a Mary é o Eddie Murphy, em versão feminina. Anda sempre bem disposta e quando chega o Tiago vai a correr à porta para lhe dar a habitual palmadinha na mão: “Take five Jay, Jay Júnior (pequeno João, tinha de ser, não é)!” Depois olha para mim e diz “Hello my lady boss, how are you?”. A primeira vez que ouvi este nome, fiquei deslumbrada. Nunca na vida tive o privilégio de receber “um título” tão pomposo. Já me chamaram muita coisa, desde estúpida a Dra, Sra Jornalista, miúda, menina, miúdeca, parva...agora “lady boss”, é um título que está reservado só para alguns. Pois bem, eu sou um deles.

Um colega do João, que é actualmente o nosso melhor amigo em Joburg, estava um dia destes cá em casa a jantar e disse-me que a empregada dele o tratava por “Master”. Chocado e assustado com o peso que tem um título como este, pediu-lhe inúmeras vezes para não o tratar por “Master” e para o chamar pelo nome mas a Sra ficava sempre muito envergonhada e demorou algum tempo até conseguir ter a “ousadia” de o tratar pelo nome. Pelo que conseguimos perceber, estes “títulos” são heranças do Apartheid e não é fácil para muitos empregados tratarem os patrões pelo nome. Como a Mary não consegue dizer o meu nome, chama-me “Maddy, my lady boss”.

A Mary vive em Orange Farm, uma favela onde a realidade fica a planetas de distância do famoso bairro de Orange County na Califórnia, que aparece na série “OC”, onde vivem pessoas muito ricas. Orange Farm fica igualmente muito longe do nosso bairro de Parkhust, a norte de Joanesburgo. Para chegar a nossa casa, a Mary demora cerca de 3 horas e tem de apanhar o comboio, um táxi e andar vários quilómetros a pé com o filho de 4 anos às costas. Acorda às 4h30 da manhã e depois desta longa viagem, deixa o filho na escola, que fica a uns quarteirões da nossa casa.
Em Orange Farm vivem cerca de 350 mil pessoas. Os primeiros habitantes que acamparam neste pedaço de terra eram agricultores, que começaram a construir as suas casas em 1988. Apesar da escassez de água e do cenário de profunda pobreza, Orange Farm não é das piores favelas da África do Sul. Já tem algumas casas em tijolo com electricidade, uma biblioteca moderna, um centro comunitário, uma clínica e algumas algumas estradas estão alcatroadas.

O Justice, filho da Mary, é um rapazinho tímido que já se tornou no melhor amigo do Tiago. Nos dias em que a mãe trabalha, passam as tardes a brincar em casa e no jardim. Entendem-se lindamente em português, inglês e sotho e, talvez seja impressão minha, mas parece-me que o Justice entende mais “tiaguês”, do que nós.

Numa das primeiras vezes em que o João viu o Justice, apanhou o miúdo a dormir num cobertor velho no chão da nossa casa. Disse à Mary que podia pôr o filho a dormir no sofá, mas ela teve alguma resistência em aceitar. Só mais tarde percebemos que não é habitual nesta terra, os negros utilizarem os objectos dos brancos. Nomeadamente usar os nossos talheres e a nossa loiça. A Mary anda sempre com a sua malga de plástico e um púcaro de esmalte cheio de chá. Por mais que lhe diga para usar os nossos pratos e os nossos copos, apanho-a sempre na cozinha a comer com as “suas” coisas. E quando vai aquecer a comida, não usa o nosso fogão, nem o nosso micro-ondas, vai à pequena casa (acho que inda não vos tinha dito que no nosso jardim temos uma casa para os empregados) e põe-se a cozinhar no fogão do casinhoto..

É óbvio que tivemos de pôr um fim a isto. Não nos queremos armar em heroís e nenhum de nós quer mudar a cultura e costumes deste país, mas tinhamos dificuldades em aceitar este hábito, tradição ou lá o que quer que seja.... Sentimo-nos na obrigação de explicar à Mary que não concordávamos com este tipo de comportamento. Disse-lhe que respeitava as opções dela mas que me incomodava que não se sentisse em casa. Agora o Justice já dorme sestas e vê desenhos animados no nosso sofá, brinca com os brinquedos do Tiago e a Mary já come cá em casa e usa as nossa loiça quando lhe apetece.

Durante a época das chuvas, no verão, o Justice estava quase sempre doente porque sofre de bronquite e a barraca onde vive a Mary ficava constantemente inundada. Depois de uma jornada de trabalho e de uma longa viagem com o filho às costas, e com o jantar dado a bordo do táxi ou do comboio, a Mary chegava a casa e tinha de esvaziar a sua barraca ensopada de água.

Eu e o João propusemos-lhe mudar-se para a nossa cottage, depois de falarmos com o proprietário da casa - que nos assegurou que ela era uma pessoa de extrema confiança, trabalhara 8 anos em casa dele e ele inclusivé já lhe tinha feito a mesma proposta no passado, mas ela recusara. Disse-nos que tinha algumas dúvidas que ela aceitásse mas que achava que era uma excelente ideia, até porque nos daria uma certa segurança, ter alguém em casa durante as nossas viagens.

A Mary ficou radiante com a proposta e mudou-se há umas semanas para o casinhoto do jardim, que segundo nos disse tem umas condições de longe melhores que as da sua barraca de Orange Farm, onde continua a passar os fins-de-semana. O Justice nunca mais ficou doente e a nossa casa nunca esteve tão limpa e arrumada.

À medida que eu e a Mary nos fomos conhecendo melhor, fomos partilhando algumas confidências. Perguntei-lhe naturalmente onde estava o pai do Justice? Com a sua boa disposição habitual, foi-me contando pedaços da história da sua vida. Tão difícil de imaginar que seria tão trágica. Há cerca de 13 anos, a Mary ficou grávida de um menino, que acabaria por morrer com 6 meses de vida. O marido era alcoólico e num momento de desespero matou o bebé de seis meses e suicidou-se a seguir, deixando a Mary num estado do qual só muitos anos mais tarde viria a recuperar.

Durante as suas longas viagens entre a casa e o trabalho conheceu um homem, que se transformou num grande amigo. Ao longo de 5 anos, viajaram de comboio e de táxi, que para quem não sabe são carrinhas tipo toyota hyace, que transportam negros entre a cidade e as favelas. São verdadeiras bombas-relógio que circulam pela cidade a abarrotar de passageiros, e páram inesperadamente em qualquer lado. Muitas estão literalmente a cair de podre. Além da sida que neste país, ainda mata milhares de pessoas todos os anos, grande parte das mortes devem-se a acidentes com estas “traquitanas velhas”. Passaram-se 5 anos, até a Mary perceber e aceitar que estava apaixonada e pronta para ter outra relação e 6 anos depois nasceu outro rapaz, a quem ela deu o nome de Justice, por sentir que finalmente se fazia justiça depois da mágoa profunda, que a perda do primeiro filho lhe causara.

Poucos dias depois do nascimento do Justice, a Mary ligou ao marido que estava no trabalho, para lhe pedir que fosse à farmácia comprar alcóol para desinfectar o cordão umbilical do recém nascido. Lembra-se apenas que era uma sexta-feira e que foi a última vez que falaram. Até hoje não sabe o que aconteceu. Colocou anúncios nos jornais e os amigos e a família tentaram procurá-lo por toda a parte, mas sem sucesso. A polícia suspeita que tenha sido vítima de carjacking “ Não há um único dia que passe que não pense nele. Era uma pessoa maravilhosa e muito bondosa”- diz-me com as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara.
Nunca tinha visto a Mary a chorar. Abracei-a e, a partir desse dia, passou ela a ser a minha “lady boss”.

T.I.A. - Fevereiro 2009



Queridos amigos,

Depois de passar mais de uma semana sem internet volto a sentar-me à frente do computador para vos contar um pouco do que tem sido a minha vida por aqui.
Há duas semanas, levantei-me da cama a meio da noite com o barulho de uma violenta tempestade que deixou o alarme a tocar freneticamente. Atordoada com o susto, desliguei o alarme e liguei as luzes exteriores para ver se havia algum intruso no jardim.

No dia seguinte, não tinha telefone nem internet e telefonei para a Telkom - a empresa que nos fornece a linha telefónica e a internet - a pedir, por favor, que enviassem com urgência um técnico a nossa casa para arranjar a linha que tinha ficado danificada com a tempestade. Garantiram-me que enviariam alguém assim que possível. Esperei eternamente. Durante mais de uma semana, liguei-lhes várias vezes por dia e a conversa era sempre a mesma " Madam , we'll do what we can. As soon as possible, someone will come to your place".

Depois de inúmeros telefonemas e muitos dias de espera, em que aproveitei para pintar várias peças de mobiliário que comprámos para a nossa casa....perdi a paciência! Pintar móveis com uma esponja passou, aliás, a ser um dos meus novos hobbies. Qualquer "dondoca" que se preze adora pintar e há que aproveitar esta oportunidade de estar sem nada para fazer. Afinal não há nada melhor do que ter tempo e espaço para pintar e sujar aquilo que nos apetece!

Voltando à saga da Telkom....Decidi ligar mais uma vez. Desta vez muito zangada e com um tom de voz ameaçador: "Oiça lá, mas afinal que história é esta??? Não saio de casa há vários dias porque estou à espera que venha cá um técnico da vossa empresa arranjar a linha telefónica. Isto é uma falta de respeito! Todos os dias é a mesma conversa. Dizem que mandam alguém e ninguém aparece. Estou há uma semana sem telefone e internet e preciso de internet para trabalhar. O mês passado foram 3 semanas sem internet e pagámos a mensalidade na totalidade, sem um único desconto ...Por isso, agora estou a avisar-vos, ou enviam já alguém ou acabo já com o meu contrato convosco!"A Sra do outro lado ouviu-me pacientemente até ao fim e respondeu com um tom de voz calmo: " Yes Madam, we will do our best".
Pareceu-me ouvir um riso do outro lado.Furiosa liguei para o João que estava em Madagáscar a fazer uma reportagem sobre um golpe de estado que gerou muita confusão. " Estes tipos da Telkom não têm respeito nenhum. Não aparecem e não resolvem o problema da internet. Ainda por cima a fulana começou a rir-se. Achas normal??"-" Tens de ter calma, não te esqueças T. I. A (tee –ai- ei)."- "Desculpa?? não estou a perceber Tiii---Aiiii--- Eeiiii. O que é isso?"- "THIS IS AFRICA. Estou a tentar explicar-te que tens de ter calma, as coisas aqui levam o seu tempo. Além disso, a Telkom é a única companhia de telefones na África do sul , por isso nem vale a pena dizer-lhes que vais acabar o contrato com eles. A mulher riu-se porque sabe que não tens outra alternativa. Eles estão-se a lixar. Agora tenho de desligar. Falamos mais logo" T. I. A Mas que raio!
Neste micromundo de aparência europeia em que vivo actualmente, é fácil esquecermo-nos que estamos em África. Para não me irritar mais, tentei minimizar a situação e lembrar-me de como eram as coisas em Portugal há uns anos atrás quando a PT detinha o monopólio das telecomunicções e como tudo funcionava tão mal. Lembrei-me ainda da infindável e vergonhosa correspondência que troquei com a TV Cabo durante meses a fio até aparecer a Cabo visão na minha zona de residência e ter uma segunda alternativa.E também dos primeiros tempos em que vivi em Nova Iorque, de toda a papelada que precisava para conseguir qualquer tipo de contrato e de como tinha de constantemente provar que era uma pessoa de bem sem intenções terroristas. "Maybe this is as good as it gets" e tenho mesmo de aprender a esperar.

Finalmente começo a ter uma rotina. Para os que pensam que a vida de "dondoca" é uma maravilha, fiquem a saber que acordo todos os dias às 06H45 da manhã e que às 21H30 já tenho os carneirinhos contados, uma história de adormecer aviada e a música de embalar cantada. Por aqui, os dias começam muito cedo e terminam muito cedo também ( são duas horas mais tarde do que em Portugal).De manhã, arranjo o Tiago, dou-lhe o pequeno-almoço, deixo-o na escola que fica a cerca de 7 km de casa e aproveito a manhã para fazer o máximo possível. O tempo voa até ao meio-dia, hora a que tenho de estar na creche para o ir buscar. Depois almoçamos, passeamos e brincamos os dois durante a tarde. Parece-vos enfadonho? Garanto-vos que é divertido e estafante. Quem tem filhos pequenos sabe perfeitamente o que quero dizer.

Nas minhas recentes incursões pela cidade tenho tido alguns episódios caricatos com elementos da comunidade judia de Joburg. O meu primeiro encontro aconteceu há cerca de uma semana, quando decidi cortar o cabelo. Fui a um centro comercial perto de nossa casa e tentei encontrar um cabeleireiro com um aspecto discreto. Afinal só queria cortar as pontas e não queria de maneira nenhuma pôr a minha farta cabeleira nas mãos de uma mente com ideias demasiado arrojadas. Entrei na loja e uma Sra de cabelos louros com muitos caracoís ofereceu-me um chá e pediu-me para esperar um momento. Chegou um homem de 50 e poucos anos que falava inglês com um ligeiro sotaque. Perguntou-me se eu era holandesa? Disse-lhe que não mas que tinha vivido na Holanda. - "Ah eu logo vi pela sua pronúncia.Nunca diria que era portuguesa e olhe que conheço muito portugueses que vivem aqui."Achei estranho como é que aqueles anos de convívio com holandeses tinham conseguido moldar a minha pronúncia em inglês, mas pelos vistos....- "Só querio MESMO cortar as pontas." – frisei bem " Não quero o cabelo curto está bem? E gostava que me pintasse o cabelo com a minha cor natural porque o cabelo está muito claro e as raízes já estão muito escuras."- "Muito bem minha Sra. O que a Sra quiser está bem para mim.Vamos lá então." – disse o homem.
Comecei a ouvir algumas palavras em hebraico e a Sra loura que me oferecera o chá apareceu de novo e começou a pintar-me o cabelo, depois de me despejar no colo várias revistas escritas em hebraico. Fui folheando e olhando para as imagens da socialite israelita e da Angelina Jolie com o Brad Pitt.De repente o salão entrou em alvoroço. O cabeleireiro não tinha mãos a medir. Várias mulheres entraram na loja para arranjar o cabelo, pintar as sobrancelhas, fazer madeixas, etc...Comecei a olhar para o relógio, com receio que aqueles tipos se esquecem-se de mim e que a tinta derrete-se o cabelo. A última coisa que queria era sair dali careca ! Depois de algum tempo, o Sr. voltou à minha cadeira, olhou para a minha cabeça, mandou tirar a tinta e começou a cortar-me o cabelo.. - "You see…. my daughter is getting married tomorrow and all my family is here to take care of the hair"- "Ohhh I see "- respondi eu - "Congratulations for your daughter." - " Thank you. It's going to be a very nice party, with lots of people. I'm so nervous!"Não consegui deixar de tremer a perna e olhar para a tesoura quando ele disse que estava nervoso. - "Don't cut too much. Just a little bit, ok?"Minutos depois o homem solta um grito e olha para o espelho.Fiquei congelada e só pensei: "Ai Meus Deus o que é que o homem me fez ao cabelo???"- " SHALOM SHALOM " dizia ele, entre outros sons que não consigo reproduzir.Correu para a porta do salão de tesoura na mão e agarrou-se a um homem. Começou a abraçá-lo e a beijá-lo na cara e à volta várias mulheres guinchavam e soltavam ruídos em hebraico.

"Totally lost in translation." –pensei - Mas onde é que eu vim parar??"Minutos depois, e visivelmente mais calmo o homem aproxima-se da cadeira e olha-me através do espelho: "I am so sorry Madam . But you see, it's a lot of emotions for me. This is my brother" – disse, apontando para o homem a quem se abraçara minutos antes – "I didn't see him for 12 years. He came from Israel. It was a surprise you see!!! My wife and daughters organized everything. I am so happy! Do you want to come to the wedding? It's tomorrow. There will be lots of Portuguese and Italian people." Eu não estava a acreditar no que acabara de ouvir. Será que tinha percebido bem? O homem estava a convidar-me para o casamento da filha?? - "Tomorrow?? Hhh. I would love to go but unfortunately I can't make it. You see, I am away tomorrow. But thank you very much for the invitation. I am sure it will be a lovely party. I wish you and your family all the best."
Por favor tirem-me daqui rapidamente! Daqui a pouco, mandam-me para a cozinha ajudar a preparar os pratos kosher. Depois de vários "shaloms", lá me consegui escapulir do cabeleireiro.

Os meus encontros com a comunidade judia de Joburg não ficaram por aqui. No dia seguinte fui a um oculista comprar lentes de contacto descartáveis. Disseram-me que sem prescrição médica não podiam vender as lentes e que tinha de ser examinada por um optometrista da loja.Uma senhora simpática observou os meus olhos e fez-me uma série de testes.

Depois tirou os olhos do aparelhómetro para onde estava a espreitar e perguntou-me: - " A Sra é holandesa? "Mas que raio, pensei eu. Com o meu look latino, se há coisa que não pareço é holandesa. - "Não. Sou portuguesa mas vivi na Holanda."A Sra olhou para mim fixamente, riu-se e começou a falar em hebraico."Oh no. Not again!" – pensei cá para mim. - "Desculpe mas não entendo o que está a dizer.".- " Que estranho. Tenho estado a observar os seus olhos e podia jurar que é judia."- " Ah sim? Que eu saiba não "- respondi-lhe a sorrir.- "Como é que se chama?"- "You don't want to know." – disse eu a rir. Não sei se vocês sabem o que é ter 6 nomes portugueses e ter de dizer um a um quando se é estrangeiro. Tenho vontade de rogar pragas aos meus pais cada vez que tenho de soletrar cada um dos nomes e preencher formulários. MARIA MADALENA RESINA CONCEIÇÃO E SILVA AUGUSTO - " Ah Silva" – mal ela sabe que quase toda a gente que eu conheço tem alguém da família chamado Silva "Resina- é uma árvore não é ?" - "Bem , não é uma árvore. É mais uma coisa pegajosa que os pinheiros produzem"- "Ah sim, mesmo assim .. tenho quase a certeza que tem origem judia. Os seus antepassados provalmente foram judeus e a inquisição forçou-os a tornarem-se cristãos novos"- "Hm.. Talvez" - respondi- "Foi um prazer conhecê-la . Leve estas lentes. E já sabe se precisar de alguma coisa, por favor ligue-me. Eu ajuda-a e não se esqueça, não confie em ninguém." –disse ela, abraçando-me com força.

Bem como vêem, já fiz uma amiguinha que talvez ainda tente converter-me ao judaísmo para encontrar as minhas origens... Prometo continuar a dar notícias.Beijos a abraços desta bela terra.